O melhor café você conhece pelo cheiro

domingo, 27 de setembro de 2009

Lembra?

Amarrado num mastro

Tapando as orelhas

Eu resisti

Ao encanto das sereias

Eu não ouvi

O canto das sereias

Eu resisti

Mas chegando à praia

Não fiz nada disso

Então caí

Nos braços de Calipso

Eu sucumbi

Ao encanto de Calipso

Não resisti

Depois disso eu não tive

Nenhum outro vício

Senão dançar

Ao ritmo de Calipso

Pois eu caí

Nas graças de Calipso

Não resisti

Ao encanto de Calipso

Só sei dançar

Ao ritmo de Calipso

Calipso


[Porto alegre, Péricles Cavalcanti]

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sexta-feira, 1 de maio de 2009

O rato morto

...e havia um rato morto dentro de mim. Tive que retira-lo com cuidado, aceitando a responsabilidade sobre sua morte. Porque ele entrou e mim na esperança de habitar-me e se deparou com o vazio. Talvez não tenha morrido de fome, exatamente. Talvez tenha morrido de susto, que do vazio sempre emerge o que é ausente, e o vazio não é não haver – é vestígio. Ou talvez tenha se suicidado diante de uma liberdade absoluta e solitária. E talvez eu também esteja habitando um vazio, talvez o vazio de alguém. E todos estejamos trancados no vazio de Deus. E talvez Deus seja um menino sonhador, cujos pais trabalham fora o dia inteiro. Talvez estejamos na imaginação do menino, ocupando seu vazio. Talvez ele um dia seja atropelado e morra com nós todos. Talvez perca a memória e todos desapareçamos, dando lugar a coisas que nem podemos dimensionar. Talvez estejamos no vazio de seu estômago e determinemos sua fome. Talvez nos vomite um dia, porque posso sentir seu estômago, suas contrações. Estamos entalados na sua garganta! Não vamos deixar que abra a boca e nos diga, nos transforme em sons, em palavras incomunicáveis. Que ele permaneça mudo, e sob nosso comando.

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domingo, 19 de abril de 2009

Meu barco era um chapéu

...a minha vida tem dois lados
tem dois lados a minha vida
se não tivesse dois lados
não teria um rio no meio...

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domingo, 22 de março de 2009

Duas coisas de lá

Surpreso

Desejo egoísta e sem culpa. Querer para ser querido. É preciso aprender. Estou aprendendo e sou sinceramente grato. Há certos sabores que ainda não existem, ainda não foram inventados. Posso senti-los, mas não posso usá-los.
Fico feliz quando me recrio. O que os surpreende também me surpreende. É como estar em cena plenamente. Na rua atuo. Em casa canto. Sei do que sai e do que entra.

"...e sei a vez de me lançar"

Uma vez a Tia Rô disse, em tom de brincadeira:
- Pára de se lançar, Lucas.
Tia Rô sabe das coisas.
Ma lanço pra todos os lados. Um jogo de pin-ball. Vou deixando meus vestígios. Um livro aberto. E com notas de rodapé.
A imagem do cais é tão presente por causa das cordas e das âncoras. De tanto me lançar, não saio do lugar. Estou dentro de mim. Me lançando e me debatendo dentro de mim. Ontem quase tive febre. O dia todo num estado febril.
Quando te vi não havia mais nada. Era o constrangimento do constrangimento. Teentando me aproximar me afasto, não tenho controle sobre minha força: cada toque, um empurrão. Gostaria mesmo de sentar numa mesa de bar e rir de tudo.
Medo de ficar em algum lugar atrás do tempo. Um dia vou cantar e minha cantiga vinda de longe será apenas uma conclusão. Me concluo há cada instante. Como nunca estou pronto, resta esse sabor de coisa mal-acabada.

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domingo, 15 de março de 2009

Vazado, atravessado, ocupado, vazio





(Salvador Dalí)

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sábado, 14 de março de 2009

Longe

Minha fraqueza é muito forte. Eu seria muito, seria sempre. Mas não serei, porque até serei é preciso ser e eu só seria. Minha fraqueza é muito forte.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Faz tempo

Se quando chego, já quero partir, para que me movo? Pra onde? Por quem?
Não quero que nada saia do lugar onde está, mas que tudo cresça e se multiplique.
Querida, quando eu tiver dinheiro vou morar com você. Sempre penso nisso.
Tudo tudo tudo nada nada nada.
Sonhar.

Miguel, filho da minha prima, tem quatro irmãos. Miguel era calado. Hoje está vermelho de sol e muito feliz e falante. Disse que gosta de sol: “eu gosto de sol, vocês não sabem não?” Vitória, sua irmã, gosta de ficar descascada. Vitória se desculpa muito e gosta de passeios. Outro dia me mandou um scrap que Gabriel (o mais velho) falou que sou gay e ela não acreditou. Me perguntou se era verdade. Gabriel é falante, agressivo e gosta de vinho, bebeu vinho do meu tio escondido; Vitória é vaidosa e gosta da gente, é um pouco assustada; Miguel é calado, dizem que tem problemas nos nervos, olhos grandes, sorri com modéstia; Daniel é o loiro, cabelos lisos, nariz sujo, está sempre babando, parece ser o mais amado pela mãe e sabe se fingir de morto; Ana Júlia é a bebê, sempre desconfiada, é a Meg.

Todos os que eu gostaria de ver realmente moram longe, não posso sair e marcar uma cerveja de sopetão. Quintino, Cordovil, Taquara, Nilópolis, São Cristóvão, Tijuca, Campos, Friburgo. Só Botafogo ali do lado. Mas somos todos iguais.
“As aparências enganam aos que gelam e aos que inflamam.”

Todo dia o mesmo grande esforço para sentir prazer. Foca-se nos sorrisos, cria-se um cigarro. Sigo.

Faróis no meio da noite. Numa velocidade não real. Uma velocidade de filme.

Já se perdeu o que eu estava quase encontrando. Quem?

Por que corredores você anda nessas tardes vazias? Essas tardes parecem trazer a lua. A lua mais cedo, e cheia, só por ironia.

A noite vazia e ondulante. Depois de se sentir só, percebeu que seus desejos eram caprichos. Caprichos de lua cheia, de verão. As pernas dissociadas da boca cerrada firmemente. Não havia força para ser sensual. A qualquer pré-sinuosidade, a resposta do profundo senso do ridículo. Cigarros e copos servem de coluna. Saiu sem saudade. Sem nada que o prendesse. O que lhe dava tanta fé? O tempo?
Abandonado, o corpo largado, sem tônus, esticado, os ombros abertos, mas os braços colados. Um boneco de Olinda.
Não vai ser em vão.
A necessidade era a de se sentir desejado nos meios. Desejado sexualmente. Nos trilhos do metrô se fazia de menina inteligente. Tímida. Olhava com reserva, rápida. Outro dia foi olhada por dois de forma bem intensa. Estava linda ou muito feia. Sempre havia a possibilidade da feiúra. Apostava na inocência como atenuante para seu deslocamento, sua ignorância social. Não adiantava. Ninguém tem mais tempo. Quem não sabe dançar que sai rápido da roda, que ela só dura até as seis. Depois todos retornam apagados.

Mas talvez nada tenha acontecido. Vai ser amanhã e pode dar tudo certo.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O marinheiro

poema dramático de Fernando Pessoa

Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar.
Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela.
É noite e há como que um resto vago de luar.

PRIMEIRA VELADORA – Ainda não deu hora nenhuma.
SEGUNDA – Não se podia ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.
TERCEIRA – Não: o horizonte é negro.
PRIMEIRA – Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso...
SEGUNDA – Não, não falemos disso. De resto, fomos nós alguma cousa?
PRIMEIRA – Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar, do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?

(uma pausa)

A MESMA – Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena...
SEGUNDA – Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.
TERCEIRA – Não. Talvez o tivéssemos tido...
PRIMEIRA – Não dizeis senão palavras. É tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!... Se passeássemos?...
TERCEIRA – Onde?
PRIMEIRA – Aqui, de um lado para outro. Às vezes isso vai buscar sonhos.
TERCEIRA – De que?
PRIMEIRA – Não sei. Por que o havia eu de saber?

(uma pausa)

SEGUNDA – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse.
PRIMEIRA – Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...

(uma pausa)
(...)

SEGUNDA – Contemos contos umas as outras... Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado – por que não falamos nós dele?
PRIMEIRA (...) – O silencio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah! falai, falai!...
SEGUNDA – Para que?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-me que entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a idéia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro, naquela parte em que toca a alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelos cabelos – é o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa). Ainda há pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado.
PRIMEIRA – Eu também devia ter estado a pensar no meu...
TERCEIRA – Eu já nem sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Por que é que correria, e por que é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?
SEGUNDA – As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... (...)

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Dalí conversível

Pela primeira vez...!
Acho que pude demonstrar certa técnica. Um pouco simples demais pro meu gosto.

E meus olhos chegaram marejados, fechadinhos e vermelhos. Disse à menina que chorara por causa das janelas no descanso. Estou marejado ainda, a onda, a alma toda marejada, vermelha e fechada. Eu sou Luiz no delírio.
A conversão daliniana. Reparei numa foto de meu arquivo de trabalho (não tenho como refletir agora e buscar o termo mais acertado e eficaz, não, não no puedo). Olhei para o retrato e qual não foi meu espanto ao ver um cavalinho. Na verdade logo notei que eram dois meninos de figurino branco. Confundi Silva com Braga. Eu ando nessa, curtindo essa, entende, "sacô"?
Cuiudado com as coisas.
Ei, ei, vem aqui.
"...e quando estoura a saudade."

...simples demais pro meu gosto. Olhei por rosto dele e vi uma senhora loira. Sim, uma senhora...

- Péra aí! Quantos, Lucas? -
Tudo é tão feliz.
Estou feliz demais.

...uma senhora.
Não tem gosto. Ou é de amor, ou é de líquidos. Entendeu, meu irmão?

"No carnaval a gente vive a festa da carne..."
[Homem na tv]
"Corta os pés e bebe vinagre que manda recado por meio insensato."
[Provérbios, 26;6]
Ela está no forto e a aguardo com fervor.
Está passando, espero que sim.
Riso muito bobo aqui dentro.
"É necessário falar de camuflagem ou, mais precisamente, de exibição? Não será que toda exibição é um disfarce, uma imagem ambígua da realidade que se exibe? Não será que a camuflagem protetora é a contrapartida da necessidade napoleônica experimentada pelo eu para se impor exibindo-se?
(...) delírio alucinatório e mecanismo interpretativo são duas faces complementares de um mesmo ato psíquico." [Dalí, Ignacio Gomez de Liaño]
"Pois o suicídio não é somente um ato voluntário que, por si mesmo, seria um traço diferencial entre a possibilidade humana de suicidar-se e a do escorpião ou a do castor, mas também porque no suicida existe a vontade de não voltar a ter vontade de nada. Existe, pois, uma vontade que se volta contra si mesma. O animal, foi dito durante esta conversa, vive na satisfação e no ser, enquanto o homem, na insatisfação e numa estranha mescla do ser e do nada." [Dalí, Ignacio Gomez de Liaño]

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pós Oiticica

Viver o amor é como tocar na juta e gostar. Entender a delicadeza macia do que é áspero. É esconder a luz com a mão. Esconder a luz, toca-la, abrir e fechá-la. É como chorar puramente. É como sorrir menino. Depois que se pisa nas pedras voluntariamente, tudo é mais leve. Sou água, sou ar.
Caminhei nas pedras, na areia, deitei sob a juta. Mas levei a mochila. Tirar os chinelos mas carregar a mochila deve significar. Deve querer significar o que não quero dizer: há coisas que não carecem poesia. É onde a poesia não dá pé. Meus atos são mais que completos e rezo para que a poesia esteja nos olhos de quem os vê. Vagueio buscando poesia nos olhos alheios e, quando encontro, isso dá muito prazer. Ou a poesia só está em mim e para sobreviver me invado de prazer. Poesia é escrever olhos.
Este carro é gordo, aquele outro é antipático e o senhor ali era um Omega.
Este rapaz é avestruz.
Um drama aconteceu na esquina mas há tempo para contemplar folhas.
A bolsa prateada vai adiante de você.
Subir e descer é delicado.
A juventude está em ti.
A igreja é filha da que quis chegar no céu, mas ela própria não quer – só veste as roupas dos antepassados, por isso é atarracada que só ela.
A linha reta destruiria vidas mas não posso dimensionar.
Tem cosias que são boas de olhar e não de penetrar.
Quando o grande está pequeno, escorregar pode ser bom.
Me desses um abraço e um violão.
Se existisse a palavra vipório, seria.
Não deixe sua filha cair.
Nunca se sabe se é sedução ou cumplicidade.

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domingo, 18 de janeiro de 2009

Levado por canções

Onde está o fluxo?

Um dia vou ser algo gigante, de modo que se justifiquem as atitudes mais relapsas, as muitas palavras, os muitos silêncios. Ainda não tenho as provas, os sinais do possível efeito, da recepção.Ontem fui para mim um adolescente acusador, que talvez busque o susto dos outros ou apenas a própria satisfação redimida. Provar e mostrar.

Agora meu corpo é um caminho longo e é difícil sair dele. Uma cidade inteira. Eu não sei, eu não sei. Será que até o fim do dia vocês param de me percorrer? Eu não varreria este lugar.

E o medo de me enjoar se antecipa à concretude e repele o desejo. Não enjoar de, mas enjoar de mim em. Nada vai mudar meu mundo.

Bye-bye, bye-bye ele diz. Bye bye Dalva, Drexler, Beatles, Elis, Maysa. Bye bye você que gosto tanto mas que agora – peco: seu nome é Medo fora de mim. Se alguma cabeça se balançar em sinal de leve reprovação e pena, se o silêncio se constranger e se ondular.

O que digo é só meu e queira Deus que se aproxime de alguém – sob qualquer forma, que injete sorrisos. Como a música triste que me alegra. E que o vento me livre de ser incômodo. Não. Não! A quem possa interessar, sim.

Minha dormência. Minha descompostura. Minha distância. Minha inveja. Meu rompante. Minhas folhas. Minha voz.

Estou com vergonha de gostar, vergonha de dizer. Vergonha por antecipar, vergonha por sonhar. Quem eu sou quando som não se apossa de mim?

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sábado, 10 de janeiro de 2009

Mistério na rua Mineira, São Cristóvão

Bela manhã, saiu de casa e subiu a ruazinha, portando leveza cínica (sua leveza lhe parecia deliciosamente pesada) e furor. Na frente do prédio salmão. Apertou numa campainha e acertou: – Me deu uma vontade louca de saber como você é, quem você é, como é sua casa, sua vida. Vim. (Pausa. Espanto.) – Entra. – Quero saber como é o seu beijo. (Beijo.) – Vamos para o meu quarto. (...)(,,,)(!!!)
A sua boca é um pouco agressiva, esse penteado também é agressivo e estranho e ríspido. Seus braços são bonitos. E seus olhos (!) têm alguma coisa mais misteriosa, algo que não me diz nada de você, diz de mim. O que eles estão trazendo? Foi a forma como você olhou pro meu gato persa-angorá?
– Eu conheço pessoas que te conhecem, sabia? – Qual é o seu nome? – Lucas. – O meu é Rodrigo. – Peixe. – ?! – Eu vi no orkut. E, bem, vou te ver dormir? Não? Então vou embora. Abre a porta pra mim?
Mas... se bela manhã eu saísse do número 27 subsolo 101 e subisse a ruazinha portando – sim, portando! – minha leveza cínica e meu furor? Na frente do prédio salmão que estou vendo daqui. A janela. Essas persianas de bambu se abrem como num mágica. Que mão é esse que as abre mas não olha através? O cachorrinho andava no parapeito antigamente. Era um cachorrinho dessa raça que eu gosto mas esqueci o nome, o que posso dizer é que era pequeno e tinha a cara amassada como se tivesse levado um soco. Detrás da grade ele andava balançando o rabo-cotó. Que cena mais triste, mas que eu desejava que não acabasse nunca. Por mim, que o cachorro passasse seus dias a fio no desespero solitário, no ridículo de passear num parapeito, que prosseguisse nessa atitude patética, para o meu prazer.
A mãe está sempre aqui na frente. É a vizinha do carro vermelho, é como dizem. Conversa com minha mãe Ana e com a vizinha que também é Ana, assim com a outra vizinha do terceiro andar, que não conversa, mas é Ana também.
Há algo maior nisso tudo. Que mistério estou revelando? No que eu pensei no momento exato em que o vi, na minha sala, olhando para o gato, sorrindo, feliz Natal e etc? naquele “instante-já”, qual a imagem mais virgem? E esse cão que poderia não ser dele e pode, assim como a mãe e o carro vermelho e a persiana, cada um pode ser completamente dissociado. Estou quase acreditando que intuição existe. Quase. Explicito tanto os mistérios do sexo que os transformo em teoria, em notas de rodapé.

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sábado, 3 de janeiro de 2009

As palavras ausentes [Reticências nº 2]

Melhor falar das minhas próprias ondas. Começar do ponto em que se quis saber o que há por baixo da água, o que há debaixo da superfície. Seria a superfície o resultado do profundo? Ou, colada debaixo da superfície, há outra superfície finíssima sobre outra superfície e outra...? A superfície é um chega!, mais que um limite – é um basta, um não posso mais, não posso, não posso e entenda, sim?
Agora vejo que estou delirando e que o fundo e a superfície não existem. Coexistem, o que é diferente. Se misturam e se trocam, são uma coisa só que é transportada para o alto pelas bolhas. (As bolhas são partes que a pertencem, mas a movem. Estou sendo claro?) E coexistir necessita deixar de existir um pouco. Não se pode existir completamente com. Eu te existo. Tu me existes. E isto é belo.
No ponto de onde questiono, o mato cresceu imponderadamente e está úmido.
(...) E tinha muito medo de não ser bom naquilo ou não ser bom em qualquer outra coisa ou que não o considerassem. (...) como quem dizia: eu posso mais que (...) um gostinho de dor (...) eu gostava.

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domingo, 28 de dezembro de 2008

Pinter

Harold Pinter, o grande dramaturgo inglês, morreu. No Natal. Fiquei espantado quando li a notícia. Acho que agora ele é o autor de teatro que eu mais gosto. Resolvi falar um pouco sobre ele, a título de homenagem. Ele é crepuscular e criticou abertamnete o Bush.

A primeira peça que li de Pinter foi A volta ao lar, onde ele reconta a volta do filho pródigo. Na sua versão, o filho bem-sucedido que fora para os EUA, retorna a Londres, ao lar decadente onde vivem seu pai agressivo, seus irmãos (um proxeneta e um boxeador), e seu delicado tio, chofer de táxi – ocupação da qual muito se orgulha. Neste ambiente estas criaturas se agridem e medem suas forças, seu poder. Quando Teddy, o filho bem-sucedido chega acompanhado de sua esposa Ruth, é recebido com frieza. Ruth é agredida verbalmente. Bom, no fim, Ruth se prostitui para a família e Teddy volta para os Estados Unidos sem ela. O personagem que mais me impressiona é Sam, o tio. Quando eu tiver meus 50 ou 60 anos acho que poderei faze-lo. Ele destoa da atmosfera geral, com sua doçura, seus modos polidos. É muito triste, mas sabe das coisas, é atacado pelo irmão, mas parece saber de seus pontos fracos. Numa cena muito curiosa, grita que sua falecida cunhada transava com o amigo do rimão no banco de trás – tendo dito isso, cai no chão. “O teatro de Harold Pinter caracteriza-se por mascarar o absurdo com um desenvolvimento dramático naturalista.”. Na verdade o próprio Pinter já afirmou que o que faz é ouvir, é escrever as coisas como elas realmente acontecem - aliás: fazia...

A minha preferida é Antigamente (ou Velhos tempos): O casal Deeley e Kate espera a vista de Anna, uma amiga, conversam sobre ela. Ela já está ali, a atriz que a interpreta, ou talvez a própria personagem. De repente ela se vira e inicia uma longa fala dirigida ao casal. Anna e Kate mostram que tinham uma relação mais forte, que moravam juntas antes do casamento da primeira. Cada vez mais excluído da lembrança da esposa, Deeley revela que já mantinha um caso com Anna naquela época, mas Kate dá a entender que também tinha um caso com a amiga. Lembranças dos três se misturam e às vezes parece que eles se confundem ou que estavam juntos o tempo todo. Há muita pausas, sempre em momentos estranhos. As informações mais banais ganham peso diante de silêncios constrangedores, e coisas tensas são ditas da forma mais natural. Bom, é isso. Leiam Pinter, é legal. Pode parecer drama psicológico americano com uma pitada de absurdo. E talvez seja isso mesmo.

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Clima de Natal

Fiz minha listinha também, mas tá nos comentários, porque sou comentador assíduo das postagens de Caio.
Esse ano foi muito difícil. Mas acho que amadureci mais um pouquinho e conheci gente muito bacana, uma galera linda da qual vocês fazem parte. É, gostei de vocês. Gosto de estar perto de vocês. E que bom que, mesmo mais distante, ou mesmo meio distante quando estava próximo, ou muito próximo estando próximo, fiz parte de momentos importantes pra vocês. Vocês fizeram parte de momentos importantes pra mim.
Amandinha. Amo você porque você permanece, você me agüenta. Isso é muito bonito. E você é exemplar (palavra boa, né? - e-xem-plar).
Beijos do pequeno, e que tudo flua!

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domingo, 21 de dezembro de 2008

ENTIDADE ou Recalque

A DEUSA DA MINHA RUA

Composição: Newton Teixeira / Jorge Faraj

A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar

Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz
A ruazinha modesta
É uma paisagem de festa
É uma cascata de luz

Na rua uma poça d'água
Espelho da minha mágoa
Transporta o céu
Para o chão
Tal qual o chão de minha vida
A minh'alma comovida
O meu pobre coração

Espelhos da minha mágua
Meus olhos
São poças d'água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu
ela é nobre
Não vale a pena sonhar


...Ih, na verdade ele queria mesmo ser a deusa, gente! Isso é tudo recalque... Freud explica ou não explica?!

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Cor

Meus sonhos têm sido muito coloridos. Acordado, sonho e rolo pela tarde e pela cama, parece um pesadelo de tanta cor. Aí acordo, esbarro em mim e até o vento dói. Não posso usar roupas muito leves. Tenho que me cobrir bem, me agasalhar pra não sentir frio, ou falta de calor, seja lá o que for. Não quero me acariciar. Me estagna. Tudo em volta da cor é bem cinza. Cinza de cimento. O tempo é cinza, um ritmo cinza. Eu sei que a gente está sempre transitando. Mas às vezes parece que chegou. Estou transitando e me transmutando pra outra coisa, me derretando. "Eu corri, e cheguei aqui. De volta." Quando me olho e vejo que estou só no meu quarto questiono a importânica de atuar, a importância de sonhar, a importância de meus cabelos. "Estou só e não resisto. Muito eu tenho pra falar." Sinto falta de uma arte narcisista. Minha. Sinto falta de amigos em casa. Sinto falta de mim. Acho que sou uma pessoa deprimida, né? Muitos cigarros mal fumados. Uma infância de fotografia feia.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O que eu tenho

Tenho um útero no final do cu, um macho escondido na base do pau, a infância na abertura da boca, uma bicha na barriga, uma dona de casa no pescoço; tenho seios nas coxas e um pau no pomo de Adão; tenho vazio nas mãos, antebraços nos olhos, um cu na garganta, grandes lábios nas gengivas, um sonho na uretra; tenho idades nos testículos, traumas nas unhas, medo nos cabelos, saliva no umbigo, você na língua.

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sábado, 13 de dezembro de 2008

7 de dezembro [Sinceramente]

Ontem fui a um lugar onde eu ia na infância. Lá eu brincava livre, corria de cueca verde pela grama verde e achava que tudo era meu. Ontem eu só queria um cigarro (sim, é clichê, mas eu queria um cigarro) ou qualquer outra coisa cilíndrica para segurar e por na boca.
Talvez eu já soubesse de tudo, e não apenas tudo de mim, mas da solidão que transpassa a história de todo homem, como uma lança cravada no meio da eternidade, deixando um vão, um rasgo imenso, que é de todos - sim, porque não quero estar só sozinho. Há um lençol freático no subterrâneo da gente, eu sei: a água está secando, secando... agora é só ar, ar e gotas marcando o tempo.

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Eu

Babaca babão.

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