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sábado, 7 de junho de 2008

Édipo morreu, não.

Introdução:

O objeto dessa análise é o personagem Édipo presente nas peças Édipo Rei, principalmente, e Édipo em Colono, ambas de Sófocles.

Por mais que o objeto provenha de um mito, não é esse que está sob análise. Assim como toda a história desse personagem pelos tempos, vinda de suas sucessivas montagens, adaptações e releituras, tanto teatrais como em outras correntes artísticas e de pensamento, foi, na medida do possível, deixada à parte.

Uso como instrumentos os textos Introdução à Análise do Texto Teatral de J. P. Ryngaert e Apostila de Análise do Texto Teatral, de Yan Michalski. Mas não são muletas, são instrumentos adaptados ao meu trabalho.

Pretendo analisar o personagem somente pelo que consta nesses dois textos para a obtenção de algo sólido que seria a construção do corpo do ator. Fazer concreta a progressão de ações (ou falta delas) que constituem em si a identidade do personagem é bem mais difícil que apenas ler e construir uma vaga imagem. Além disso, posso sentir que ao fazer esse trabalho posso estar interferindo na liberdade do artista que vai interpretar Édipo. É claro que, sei ser de suma importância o encontro de idéias próprias à montagem e não só a leitura/compreensão de um ator diretamente envolvido. E, por esse personagem ser mais que o membro de uma peça, ele é a peça, acho importantíssimo que a minha visão como encenadora esteja projetada no personagem para que isso fique evidente no espetáculo. É como se, analisar o personagem da tragédia eu esteja traçando os meus esboços para encenação. Por isso, acredito que meu Édipo é único, portanto diferente, dos Édipos passados. Estes sofreram o olhar de outros encenadores. E os próximos virão, como o meu, como conseqüência disso e de uma época. Não isento o meu olhar de parcialidade. Estou impregnada do meu tempo e Édipo não será mais uma figura morta que vive no nosso imaginário referente às tragédia gregas, afinal não sou arqueóloga. Procuro ao máximo não analisar uma tragédia grega, procuro analisar um texto dramático no meu tempo.


Análise:

Do nome do personagem. Mantendo um mínimo de coerência de discurso, começar a analisar, como Ryngaert propõe, pelo o que o nome do personagem suscita não faz parte do meu interesse. Não posso trabalhar com o que o texto quis dizer na Grécia se ele hoje não pode mais dizer. Para os gregos, ouvir o nome Édipo deveria realmente significar “pés inchados” ou qualquer outra tradução utilizada. Mas, para uma peça que vai ser vista antes que o programa possa ser lido, insistir em significações é nulo. O que é então um canal de comunicação direto autor-diretor, onde o diretor deve filtrar as informações que chegam do autor para entregá-las ao espectador. O que acredito não ter acontecido na Grécia, onde o canal oriundo do autor alcançava também os populares por força da língua. Não cabe também, fazer tradução do nome para forçar essa comunicação direta, principalmente pelo fato dele hoje ser bem mais que a peça ou o mito em si. Quem não conhece a história do rapaz que matou o pai e casou com a mãe (algumas descrições de Édipo empregam inclusive um conectivo distorcido: “Matou o pai para casar com a mãe”, dentre outras variações.)? Não mudaria o nome também, apesar dele pouco dizer de textual, para me aproveitar de sua fama: a maioria dos espectadores prefere assistir Édipo Rei à Rei dos Pés Inchados.

Outra questão à cerca do nome é mais ampla. O nome das peças. Uma Édipo Rei e outra Édipo em Colono. O status social do personagem mas, antes de tudo, a transformação dele, e sua evidência, são fundamentais para entender a trajetória do personagem.

Do sentimento de proteção. Em Édipo Rei, vemos o personagem tratando o povo com bastante carinho, demonstrando amor paternal, preocupação, comoção. (A visualização do para quem se fala é bem importante. Em algumas cenas de Édipo Rei há contato direto personagem-povo, enquanto que em Colono discurso é sempre dirigido à indivíduos, ou aos anciãos. Ele não pode ser mais o pai das massas.) Ser quem se coloca diante do povo em um momento tão delicado, deixa clara não só a sua posição como rei, como a sua posição de ligação com a cidade. Não é uma relação forçada, Édipo é rei porque o povo necessita dele. Ao colocar as suas fragilidades o povo se desnuda na frente de alguém em quem tem extrema confiança, tanto para partilhar infortúnios quanto para apresentar soluções _ este principalmente. Como o passado de Édipo é marcado pelo uso do racional, salvando a cidade , ela confia numa recorrência disso. E Édipo a obstina. O rei se coloca como sofredor, não por ter uma cidade padecendo à sua volta, mas por não conseguir, pelo caminho que seguiu antes com a Esfinge, chegar à salvação da cidade. “Sabei que muitas lágrimas chorei,/ nas muitas vias de pensamento eu me/ perdi (...)”[1] Dizer isso equivale caracterizar Édipo na linha do obsessivo e extremamente racional, mesmo que seja traído pelo raciocínio.

Ele trata seus assuntos abertamente, sempre na presença do povo, sendo uma pessoa de suposto passado imaculado.

A fala “Não ajo em nome de um remoto amigo/ mas por mim mesmo eu mesmo afasto a mácula:/ quem pôs as mãos em Laio logo pode/ querer de mim vingar-se com seu golpe.” [2] pode ser perigosa de analisar. Podia colocá-lo como egoísta em primeiro momento. Mas antes de tudo, o vejo sincero, confiando em Creonte, a quem fala. O egoísmo é mais por sobrevivência. Quem não temeria a morte ao saber que um igual foi morto? Faz parte do sentimento de conservação que vem, sem dúvida ou surpresa, antes do pensamento de solidariedade. O que não contradiz, portanto, quando diz ser a proteção do povo e seu alívio. Ele sabe que proteger a cidade é proteger a si mesmo.

Da consciência de não ser dono de seus próprios atos. Mais de uma vez, Édipo questiona a força que o guia em seus atos. “Mesmo se o deus não nos forçasse à ação”[3]; “Mas humano algum consegue/ impor aos deuses o que não desejam”[4]. Essencial para entender que a posição assumida em Colono como alguém que cometeu crimes sem poder levar a culpa, não é uma posição covarde de querer retirar a culpa dos seus ombros. Édipo não toma qualquer atitude nova em Colono ao isentar-se da culpa, já desde as primeiras páginas de Édipo Rei essa atitude fica clara.

O mais estranho é tratar Édipo por mau ou bom sabendo que a força motora em seus atos não nasce dentro dele e sim em deuses. Quando termina o homem e quando começa a grande marionete dos deuses? Talvez por ele falar de sua consciência percebemos que essa marionete não é só a mão dos deuses. Por tudo isso, para mim é de extrema dificuldade analisar certos discursos do personagem. Como posso julgar alguns pensamentos dele sabendo que são fruto de outras personalidades que não a sua? Teria eu que analisar mais um tanto de personagens: os deuses. Posso então, tentar deixar de lado as questões de julgamento de caráter que não podem ser utilizadas para essa estrutura dramática. Posso me esforçar, apesar dos moldes sociais e dramatúrgicos que ainda vivemos, a desassociar seus atos de qualquer classificação de bom ou mau. Logo não vou entrar no questionamento dos porquês, somente nas ações.

Da calúnia e precipitação. Ao interrogar Tirésias e Creonte, ao tentar ser dissuadido por Jocasta e pelo povo, seu discurso é calunioso. Ele enxerga traição e inveja onde não há. E não consegue enxergar os pontos dados durante toda a peça que o indicam como autor do crime. Édipo cai na sua própria teia racional por ter a obsessão de encontrar a solução sem reivindicar qualquer auxílio. Ou transtornado pelo que escuta (no caso de Tirésias), tentar imaginar por que alguém falaria algo do tipo para ele, antes mesmo de considerar, em princípio, como verdade. Ele confia demais em si mesmo, o que o leva a desconfiar gratuitamente das outras pessoas. Baseia-se nessa desconfiança nos seus próprios julgamentos, aliás, diz num primeiro momento que Creonte era leal e amigo desde o início, mas não hesita de acusá-lo de invejoso e de tramar o plano que o derrubaria do poder, sem sequer ter indícios para isso. É claro que, por seus crimes terem sidos alheios à sua vontade, a procura de explicações racionais para o procedimento do oráculo é natural para a sobrevivência. Tanto que, quando o povo pede que não condene Creonte baseado em boatos ele diz: “Pois sabeis que com tal pedido estás/ pedindo a minha morte ou exílio?”[5] Já tem consciência que sua tomada de atitude é uma escolha entre se acusar sem provas e acusar Creonte sem provas. Escolhe salvar a si, até o surgimento das provas.

Da dúvida do assassino. Antes do aparecimento de provas concretas, havia apenas indícios que Édipo havia matado o rei, a fala clara de Tirésias: “Afirmo que eis o matador buscado/(...)/Te uniu aos teus, inadvertidamente/_ direi_ um elo torpe. O mal não vês.”[6] No entanto, a palavra não foi suficiente para aclarar a sua visão. Mas a dúvida havia sido lançada. Caso contrário não teria tamanho espanto ao encaixar mais uma peça no quebra-cabeças da descoberta da morte do rei. Quando Jocasta fala onde Laio morreu e de sua aparência ele percebe-se assassino do rei. Como todos os passos anteriores, não basta ouvir uma vez, Édipo precisa se deparar com a testemunha ocular. É a esperança que pede a testemunha. Tudo isso por sua correção. Não há meias palavras. Se disse que puniria o assassino não interessa que seja ele próprio quem deve punir. Édipo é a justiça, cega. Fala-se em diversos textos teóricos da cegueira do que enxerga em contraponto com o visão do cego, mas não se comenta que Édipo se, se acusasse logo de início, sendo mais atento aos apontamentos de Tirésias não o tornaria menos culpado nem o libertaria da pena. O crime já está cometido. Édipo ser cego enquanto desvenda o crime que é o próprio autor só demonstra o senso de justiça e dignidade que carrega o personagem. Se se visse como autor logo de início um sentimento de conservação não o guiaria a terminar as investigações e manter-se ileso? Jocasta pede sucessivas vezes para que encerre as buscas, se estivesse ele de posse da visão não cumpriria o que pede a mulher?

Da descoberta da origem. Pelo seu empenho, obsessivamente justo, Édipo sucumbe. “Tristeza! Tudo agora transparece!/ Recebe, luz, meu derradeiro olhar!”[7] Saber que é último porque já vislumbra sua própria punição. E se cegar pode ser a tentativa vã de voltar à condição de quem ignora. A cegueira em que estava por ignorância é mais cômoda que esse clarear de fatos que o leva à auto-punição. “Ver _ por quê _, /se só avisto amarga avista?” [8] No entanto, agora que está na claridade não poderá voltar à escuridão.

Não cabe entrar na discussão se o destino de Édipo é correto ou não, por conhecermos as origens de seus crimes cometidos sem consciência. Para um assassinato e um relacionamento incestuoso, o exílio é justo. Tanto é justo que não há ninguém melhor para puni-lo do que ele mesmo. Ação que se encontra também em Jocasta, que comete o suicídio.

Da primeira morte. Fechar os olhos e se exilar são os primeiros passos para o caminho da morte de Édipo. Como sabe que não está no seu destino acabar com seu sofrimento escolhendo o suicídio ativo ele opta pelo suicídio passivo. Deixa-se morrer. Além disso se fecha. Corta comunicação visual com o mundo e menciona até que cortaria a comunicação auditiva se pudesse.

Todo texto de Édipo em Colono, exceto o final, busca definir a imagem de Édipo. O rei altivo e orgulhoso, obsessivo por justiça e lógica, é reduzido a uma figura de pedinte, de velho, que às pessoas assusta, que não sabe onde está, guiado pela filha-irmã mulher.

O assombro das personagens que o vêm deve ser o mesmo do espectador da peça. “Esta cena é terrível de ver e ouvir!”[9] diz o primeiro ancião que o vê. “Ah! Meninas! Que faço? Chorarei primeiro/ por minha própria desventura, ou pela dele,/ meu pai idoso, que já posso ver ali?/ Venho encontrá-lo aqui convosco, em solo estranho,/ usando esses andrajos gastos, horrorosos, /cujo o tecido lhe maltrata os velhos flancos/ mal cobertos, enquanto sobre sua fronte/ o vento agita-lhe os cabelos desgrenhados/ que não me deixam ver-lhe os olhos sem visão/ Combinam bem com sua roupa os alimentos/ com que ele está se nutrindo seu sofrido ventre.”[10] Seu filho, Polinices, assim que o vê. O próprio Édipo se coloca como algo que incomoda a vista: “minha aparência horrível vos afeta os olhos.”[11]

Essa descrição pode ser levada a uma caracterização própria de um morto em putrefação para deixar mais clara a idéia de morte que se auto-submeteu após a morte de Jocasta. Um corpo apodrecido, como as figuras de Beckett. Pessoas condenadas às suas próprias vidas. Que não vêm maiores esperanças ou renovações, mas continuam à espera. A diferença é que Édipo sabe da existência de algo maior que ele, os deuses. Enquanto que os personagens de Beckett não supõem a existência de nada além do material.

Com recorrência, também, é a apresentada a fragilidade de Édipo. Suas dúvidas quanto o perdão dos deuses. Sua posição menor em relação a Creonte, tanto em figura quanto em discurso, ao ponto de Édipo dizer “És hábil em palavras; digo-te, porém,/que jamais encontrei na vida um homem justo/ capaz de falar bem sobre qualquer assunto.”[12]

A mais espantosa diferença do Édipo de Édipo Rei para o Édipo de Édipo em Colono é a paciência adquirida por ele ao longo do exílio. A espera da segunda morte não é ansiosa, é sábia. E, a mais clara presença da primeira peça nessa é a crença que os deuses comandam sua vida, assim como a de todos.


Conclusão:

O importante dessa análise é considerar os dois Édipos como apenas um. Fica evidente que o personagem de Colono é a síntese dos atos (e conseqüentemente sofrimento) que o de Tebas soube ter feito. A velhice, a cegueira, o exílio, a dependência, a mendicância deram a ele sabedoria, paciência, sensatez e lhe tiraram a força física, a impetuosidade, o respeito social.

Trabalhar esse personagem hoje não poderia mais estar ligado ao sentimento trágico que e apresentava na Grécia, à época da primeira montagem. Não há hoje tensão entre a vontade do homem e a vontade dos deuses. Não há nova lei sendo implementada. Talvez o que hoje acontece seja a tensão entre homem e sociedade, que é a criação dele próprio. Por ser criação dele mesmo, a tensão que há_ sutil a ponto de ser diluída em outras preocupações mais imediatas_ não é percebida. Meu Édipo, pós-1ª-morte seria reflexo disso: uma ausência de vida_ um homem anestesiado_ baseado na tensão não identificável entre ele e seu papel na sociedade. Uma vida por obrigação. E teria o principal, que sobra nas duas peças: a consciência do absurdo.


Bibliografia:

SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Trajano Vieira São Paulo: Perspectiva, 2001.

SÓFOCLES. Édipo em Colono. In: _________. A Trilogia Tebana. Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. p. 101-196.

RYNGAERT, Jean-Pierre. Introdução à Análise do Teatro. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

MICHALSKI, Yan. Apostila Análise do Texto Teatral. Rio de Janeiro, 2007.



[1] SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Trajano Vieira São Paulo: Perspectiva, 2001. p41, versos 66 e 67.

[2] Idem. p 45, versos 137-140.

[3] Idem. p49 verso 255

[4] Idem. p50 versos 280,281.

[5] Idem. p69 versos 656, 657

[6] Idem. p54,55 versos 362,366,367

[7] Idem. p97 versos 1181,1182.

[8] Idem. p103 versos 1334,1335

[9] SÓFOCLES. Édipo em Colono. In: _________. A Trilogia Tebana. Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. p110 verso 136.

[10] Idem. p172 verso 1470-1478

[11] Idem. p118 verso 303

[12] Idem. p148 verso 917-979

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